Doação de órgãos, um ato de amor

A morte do apresentador Gugu Liberato, além de gerar comoção, trouxe à tona uma ação heroica que pode salvar muitas vidas: a doação de órgãos. Demonstrando um ato de amor e solidariedade, a família respeitou a vontade do apresentador que, ainda em vida,  sinalizou essa querência que permitiu  com a decisão em favor do desejo de Gugu, beneficiar pelo menos 50 pessoas.

Saúde
3 meses atrás
Doação de órgãos, um ato de amor

Mas quem pode doar? Como funciona? Essas e outras dúvidas vamos esclarecer nesse artigo.

Antes de qualquer coisa, vale lembrar que o Brasil é referência mundial na área de transplantes e possui o maior sistema público de transplantes do mundo. Segundo o Ministério da Saúde, atualmente, cerca de 96% dos procedimentos de todo o País são financiados pelo SUS, Sistema Único de Saúde.

Em números reais, o Brasil é o 2º maior transplantador do mundo, atrás apenas dos EUA. Os pacientes recebem assistência integral e gratuita, incluindo exames preparatórios, cirurgia, acompanhamento e medicamentos pós-transplante, pela rede pública de saúde.

Pacientes de todas as idades e necessidades esperam por doações
Pacientes de todas as idades e necessidades esperam por doações

O que é a doação de órgãos?

Não tem outra definição para classificar essa ação a não ser “um ato nobre que pode salvar vidas”.

Esse significado faz todo sentido quando tomamos ciência que o transplante de órgãos, muitas vezes, é a única perspectiva de vida ou a chance de um recomeço para pessoas que precisam de um órgão.

Mesmo tendo a importância que tem, não é encarado dessa forma por boa parte da população. Por isso, a necessidade de campanhas para que o ser humano se conscientize da seriedade do ato de doar um órgão. Doar órgãos é doar vida ou porque não dizer no plural, como foi o caso do apresentador Gugu Liberato que beneficiou 50 pessoas com a doação de seus órgãos.

Nessa toada configura o transplante que consiste em um procedimento cirúrgico que objetiva a reposição de um coração, fígado, pâncreas, pulmão, rim ou medula óssea, ossos, córneas de uma pessoa doente, no caso o receptor, por outro órgão ou tecido normal de um doador, vivo ou morto.

Dessa lista, o rim, parte do fígado e da medula óssea podem ser feita ainda em vida. Já os órgãos de pessoas falecidas somente serão realizados após a confirmação do diagnóstico de morte encefálica. Se enquadram nesse quesito, pessoas que sofreram um acidente que provocou traumatismo craniano, caso do Gugu Liberato, seja em um acidente automobilístico, queda, entre outros. Aparecem ainda aqueles que sofreram acidente vascular cerebral e evoluíram para morte encefálica.

O que é um doador de órgãos vivos?

Se enquadra na situação de doador de órgão vivos, a pessoa que se declare capaz. Mas para isso, precisa atender os preceitos legais quanto à doação intervivos, que tenha sido submetido a severa verificação clínica, laboratorial e de imagem.

Também para ser aprovado, o doador precisa estar em plenas condições de saúde, permitindo que a doação seja realizada dentro de um limite de risco aceitável. Conforme determina a lei, podem ser doadores em vida parentes até o quarto grau e cônjuges. No caso de não familiar, apenas com autorização judicial.

Quais são os tipos de doador?

Quando o doador for uma pessoa que já morreu, outras medidas são apuradas. São dois tipos:

Doador falecido após morte cerebral: paciente cuja morte cerebral foi constatada segundo critérios definidos pela legislação do país e que não tenha sofrido parada cardiorrespiratória. O doador falecido nesta condição pode doar coração, pulmões, fígado, pâncreas, intestino, rins, córnea, vasos, pele, ossos e tendões. Portanto, um único doador pode salvar inúmeras vidas. A retirada dos órgãos é realizada em centro cirúrgico, como qualquer outra cirurgia.

Doador com parada cardiorrespiratória: doador cuja morte foi constatada por critérios cardiorrespiratórios. O doador nesta condição pode doar apenas tecidos para transplante que envolvem córnea, vasos, pele, ossos e tendões.

Qual tempo de isquemia de cada órgão?

Para cada órgão a ser doado, existe um tempo necessários para ser retirado. A isquemia é o período de remoção de um órgão e transplante deste em outra pessoa.

Correr contra o tempo é a missão dos médicos (Foto: Divulgação)
Correr contra o tempo é a missão dos médicos (Foto: Divulgação)

Confira o tempo de isquemia aceitável para cada órgão:

  • Coração: 4 horas
  • Pulmão: de 4 a 6 horas
  • Rim: 48 horas
  • Fígado: 12 horas
  • Pâncreas: 12 horas

Quem não pode doar órgãos?

Mesmo não existindo restrição absoluta à doação de órgãos, ela exige critérios mínimos como causa da morte, se a pessoa é portadora de doenças infecciosas frequente, dentre outros.
Aparecem também como pessoas não aptas a doação de órgãos as que não possuem documentação ou menores de 18 anos sem a autorização dos responsáveis.

Como doar órgãos se a pessoa morrer em casa

A doação de órgão é uma coisa séria. Em caso onde a pessoa que deseja doar morre na sua residência, somente as córneas poderão ser doadas.

A remoção da pele e tecido ósseo fica prejudicada, pois requer ambiente apropriado, como um hospital. Mesmo no caso da córnea, a doação só será permitida se for feita em até seis horas após a parada cardiorrespiratória.

É importante frisar que para isso, a declaração de óbito deve ser providenciada rapidamente e, em seguida, ser feita a comunicação sobre a intenção de doar à Central Estadual de Transplantes. Esse departamento entrará em contato com um Banco de Tecidos Oculares, e o profissional fará todos os procedimentos necessários à retirada da córnea, inclusive a reconstituição do corpo. Em casos de morte de causa não natural, o corpo deverá ir para o IML onde será submetido a necropsia.

Existe limite de idade para ser doador?

Muito se questiona quando a idade de um doador. Quando a pessoa é menor de 18 anos, ela só pode doar com autorização dos responsáveis.

Para as pessoas acima dessa idade, o dado limitador remete a uma análise para saber se o órgão é viável para transplante. O estado de saúde do doador também é avaliado. Em alguns casos, certos profissionais podem restringir determinados limites de idade em situações específicas.

Quem recebe esses órgãos?

Os órgãos coletados serão destinados à pacientes inseridos em uma lista de espera única que aguardam por transplante.

Pacientes aguardam com ansiedade pela recepção do órgão (Foto: Agência Brasil)
Pacientes aguardam com ansiedade pela recepção do órgão (Foto: Agência Brasil)

Por meio de exames laboratoriais é possível chegar a um resultado de compatibilidade entre doador e receptores. A posição na lista também é um fator levado em consideração. Nesse caso, são avaliados critérios como: tempo de espera e urgência do procedimento.

Quem faz a retirada dos órgãos?

A retirada dos órgãos para transplante é feita por uma equipe de cirurgiões autorizada pelo Ministério da Saúde e com treinamento específico para esse tipo de procedimento. O procedimento ocorre em um centro cirúrgico, após a confirmação da morte encefálica, autorização da família e localização de um receptor compatível.

Depois de realizado o processo, o corpo do doador é adequadamente retocado e liberado para os familiares realizarem o velório e o enterro.

O receptor pode ser escolhido?

Por se tratar de um momento delicado, quase sempre os familiares de quem se dispôs a doar, querem escolher uma pessoa conhecida que precisa para receber. Mas isso é possível?

Se for atendida à legislação vigente, é permitido na doação em vida. No entanto, para a doação após a morte, nem o doador, nem a família podem escolher o receptor. É regra ser sempre o próximo da lista única de espera de cada órgão ou tecido, dentro da área de abrangência da CNCDO, Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos e Tecidos, do seu local.

Por que é baixo o número de doadores?

Sempre que uma pessoa necessita da doação de órgão vem à tona o tempo de espera. Isso ocorre em razão do baixo número de doadores provocado pela baixa taxa de autorização da família do doador.

Em entrevista feita recentemente pelo Ministério da Saúde, aproximadamente metade das famílias entrevistadas não concorda que sejam retirados os órgãos e tecidos do ente falecido para doação. Isso vai na contramão da conscientização, já que em muitos dos casos a pessoa poderia ter sido um potencial doador.

Morte encefálica

Uma das causas que permitem a doação de órgãos é quando a pessoa tem morte encefálica, semelhante ao que ocorre com o Gugu Liberato. Trata-se da perda completa e irreversível das funções cerebrais. Em suma, é a morte de uma pessoa.

O Conselho Federal de Medicina é quem regulamenta o diagnóstico de morte encefálica. Até 2017, a análise podia ser feita apenas médico especialista em neurologia, mas essa exigência foi retirada, após o assunto ser amplamente debatido e acordado com as entidades médicas.

Sendo assim, a comprovação da morte encefálica deverá ser feita por médicos com capacitação específica, observando o protocolo estabelecido. Para chegar a essa conclusão, são utilizados critérios precisos, padronizados e passíveis de serem realizados em todo o território nacional.

Isso permite a equipe médica mais segurança para o diagnóstico e permite a conversa imediata com a família sobre a doação de órgãos.

O que fazer para ser um doador de órgãos

Motivos não faltam, embora seja muito pessoal, para ser um doador de órgão. Caso tenha interesse, a primeira medida a se tomar é avisar a família.

Receber o órgão tão esperado é sinônimo de milagre Foto: Agência Brasil)
Receber o órgão tão esperado é sinônimo de milagre Foto: Agência Brasil)

Dentre os principais passos estão uma conversa com os familiares sobre o desejo de ser doador e deixar claro a eles que devem autorizar a doação de órgãos. Especificamente no Brasil, a concessão de órgãos só será feita com uma autorização familiar.

Diferente de outros país, aqui a legislação brasileira não garante efetivamente a vontade do doador. Contudo, em grande parte dos casos, quando a família tem conhecimento desse desejo do parente falecido, ele é acatado.

Por essa razão, o diálogo e clareza com os parentes sobre a intenção de ser doador são fundamentais, essenciais e necessários. Caso contrário, pode não ter o desejo atendido. O consentimento é a modalidade que mais se adapta à realidade brasileira por conceder segurança aos envolvidos que são o doador, o receptor e até mesmo para os serviços de transplantes.

Outra maneira de ter a intenção atendida é por meio judicial. A vontade do doador, claramente registrada, pode ser aceita, caso haja decisão nesse sentido. Para tanto, reforça-se a vontade do doador em comunicar a família.

Lista de espera

Quem faz parte da lista de espera pode consultar mais informações em um hotsite dentro da página do Ministério da Saúde.

Confira o passo-a-passo para consulta ao prontuário de pacientes inscritos em lista:

  • Acessar através de navegador;
  • Clicar <prontuário do paciente>;
  • Na tela seguinte, escolher o órgão ou tecido pertinente.
  • Após, DIGITAR (copiado não funciona);
  • O RGCT completo do paciente (exemplo 123456-7890);
  • O CPF do paciente (o sistema preenche automaticamente pontos e hifen);
  • O dado referente à data de nascimento do paciente (varia a cada tentativa: dia; mês ou ano);
  • Os caracteres que aparecem no quadro do canto direito da tela.
  • Depois, clicar na lupa. Os dados do prontuário serão mostrados na tela.

Veja abaixo a informação mais recente disponível sobre os quantitativos de potenciais receptores em lista de espera por um transplante de órgão ou córnea.

Lista de Espera –  Cadastro Técnico

OUTUBRO 2019

  • Rim 30.348
  • Fígado 1.972
  • Pâncreas Rim 558
  • Coração 389
  • Pulmão 223
  • Pâncreas 70
  • Intestino 3
  • Multivisceral 3

Total de Órgãos 33.566
Córnea 12.148

Total Geral :45.714
Fonte: SIG SNT e SIG SP

Data da atualização: 31 de outubro de 2019

*Com informações do Ministério da Saúde

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